As Frigideiras

Caro leitor, quando encontramos um bloco de carnaval onde foliões tumultuados empunham frigideiras como instrumentos, podemos inicialmente pensar em loucura ou improvisação. Mas, no litoral do Paraná, o carnaval sempre foi além do espetáculo: foi identidade, memória e tradição. Com criatividade, Paranaguá e Antonina — sempre ditos como os melhores carnavais do estado — elevaram o evento a uma forma de patrimônio cultural. Ofereço uma pequena lição de história sobre o carnaval brasileiro, o momento em que as frigideiras chegaram a Paranaguá e ganharam espaço nos ritmos e através das gerações. 

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A Escola de Samba Império Serrano desfilou na avenida do Rio de Janeiro nos anos 1940, com uma seção inteira de ritmistas mexendo com frigideiras. 

Muitos pensaram que isso levaria a uma falta de harmonia na percussão; mas, no geral, isso era harmonia e surpresa. Em 1968, no auge da ditadura, a polícia proibiu as frigideiras porque eram tocadas com um ferro pontiagudo e começaram a ser usadas por malfeitores encontrados nos blocos. Nos anos 1970, como foi o caso mais recentemente com aquele período, elas foram trazidas de volta decisivamente sob a liderança de Marcinho da Frigideira. Desta vez, em 1999, a Unidos do Viradouro veio à frente de sua percussão, à frente da qual trouxe seis frigideiras, reforçando o valor simbólico do instrumento. 

Imagem: Gilberto Fonseca, Lizangela P.S., 2026.

Em Paranaguá, a frigideira se popularizou nos anos 1960 quando Augusto, um caminhoneiro de Florianópolis, tocou a frigideira de cabeça para baixo. Desde então, o tambor começou a ganhar espaço na frente das seções de percussão e dos blocos de carnaval. O Sr. Dodô lembra que quando tinha 15 anos já tocava frigideira no Carnaval, quando o carnaval era intensamente vivido nas ruas. Paranaguá e Antonina compartilharam por décadas o destaque do carnaval do Paraná. Antonina destacou-se por seus blocos de rua e pela ocupação espontânea da cidade. Paranaguá pelo poder de suas escolas de samba, a organização das seções de percussão e a inventividade musical com que combinava instrumentos não convencionais. Por exemplo, na escola de samba Junqueira, a categoria de tocadores de frigideira consistia nos membros Dodô, Lauri, Dr. Roberto, Pelé Gordo, Miguel Preto e outro amigo, filho de Ari Pintado, do antigo Rei Momo Pintado. 

Esta banda também incluía Jair, Orides, Alaor, Mocumba e Zé Bolacha como pandeiros. Este era o carnaval das nossas escolas de samba. 

A Escola Junqueira chegou a se apresentar no Círculo Militar do Paraná, sua participação sendo transmitida na TV pelos canais 6 e 12. Hoje em dia, muitos que vivenciaram esse momento guardam a pura pompa desse carnaval em suas memórias. Dodô e o falecido Teco, irmão de Moura, juntaram-se à Escola de Samba Mirins em 1967, que foi iniciada por jovens e crianças e era composta por crianças e adolescentes — crianças que desempenhavam o papel de músicos de samba da época. 

Dodô e Moura mantiveram a harmonia, o samba permaneceu inquebrável, e até mesmo aquelas pequenas mãos com os pequenos aprendendo a acompanhar os tempos eram a parte mais poderosa do som, a melhor parte. 

Em Antonina quem ainda mantém viva esta tradição é Gilberto Fonseca, o “Gibe Araponga”, que desde 1975, desfila em todas as escolas com sua famosa frigideira.

Ao ouvir essas histórias, peço a você, leitor, que caminhe por essas ruas paralelas, pelo som das frigideiras, o toque dos pandeiros e os sons das vozes que ainda reverberam em nossa memória coletiva. Porque o carnaval de Paranaguá e Antonina não pertence apenas às pessoas vivas, ele permanece vivo na memória compartilhada, histórias vividas, e agora faz parte do compasso do tempo para cada leitor também.

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior

Hamilton Ferreira Sampaio Júnior é pesquisador de história e genealogia, formado em Teologia e licenciado em História. Faz parte da Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia e do Departamento Cultural do Club Litterario de Paranaguá, sendo também sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá. Atua em projetos históricos de resgate de memória, livros comemorativos e biografias, além de projetos museológicos e pesquisas documentais para segunda cidadania. Seu mais recente trabalho foi o livro comemorativo dos 100 anos da Associação Comercial Agrícola e Industrial de Paranaguá.

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