O mundo lembra a queda do muro

Internacional O mundo lembra a queda do muro por Redação Tribuna do Norte 8 de novembro de 2009 8 de novembro de 2009 FacebookTwitterWhatsAppTelegram

Berlim – Vinte anos depois de o Muro de Berlim ter caído em meio a uma revolução pacífica, líderes de todo o mundo seguem até a capital alemã para festejar o momento histórico. Cerca de 100 mil pessoas são esperadas para o ápice das celebrações no Portão de Brandemburgo nesta segunda-feira, um potente símbolo da unificação incrustado nos limites da falha tectônica que separava Oeste e Leste durante a Guerra Fria. A Alemanha Unida tem recebido atenção global, no vigésimo aniversário da queda do muro. Há eventos grandiosos e também menores, recordando a excitante noite em que as autoridades comunistas surpreenderam o mundo ao de repente abrir a fronteira.

Após 28 anos como prisioneiros em seu próprio país, eufóricos alemães orientais seguiram para os postos de controle e passaram por confusos guardas, muitos chorando nos barcos de alemães do outro lado da fronteira, que os recebiam.

A queda do Muro de Berlim ressoou por todo o mundo naquela noite, abruptamente encerrando a Guerra Fria e abrindo caminho para a unificação da Alemanha. O país estava dividido desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

“A destruição da Cortina de Ferro em 9 de novembro de 1989 é ainda o evento político mais marcante da vida da maioria das pessoas: isso liberou milhões de indivíduos e levou ao fim do conflito global que ameaçou provocar a aniquilação nuclear”, afirmou a revista semanal britânica The Economist nesta semana.

Às vésperas das festividades, a chanceler alemã, Angela Merkel, falou na terça-feira em sessão conjunta do Congresso dos Estados Unidos. No discurso esteve presente a imagem do muro, e Merkel agradeceu Washington pelo decidido apoio à unificação alemã. Também pediu um reforço na cooperação transatlântica em temas cruciais, como mudança climática.

“Eu estou convencida de que, assim como tivemos a força no século 20 para provocar a queda de um muro feito de concreto e arame farpado, devemos agora mostrar a força necessária para superar os muros do século 21”, afirmou Merkel, que cresceu na Alemanha Oriental.

Os líderes de Grã-Bretanha, França e Rússia devem seguir para Berlim, bem como a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Ela representará o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, enquanto ele viaja pela Ásia.

Também participarão o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, o ex-presidente polonês Lech Walesa e ativistas de direitos civis da Alemanha, que se encontrarão na Bornholmer Strasse, um dos lugares onde o muro primeiro foi erguido.

O maestro Daniel Barenboim, que tem cidadania argentina e israelense, liderará a orquestra da Ópera Estatal e o coro, em um concerto no Portão de Brandemburgo. Depois, Gorbachev deve derrubar as primeiras peças gigantes de dominó que cairão ao longo de dois quilômetros, na rota onde ficava o muro. O roqueiro norte-americano Bon Jovi e o DJ alemão Paul van Dyk irão entreter a multidão durante a noite.

Há encontros bilaterais planejados para ocorrer às margens da comemoração, sobre temas urgentes como as ambições nucleares do Irã, a guerra no Afeganistão e a escolha do primeiro presidente permanente da União Europeia.

Quarta economia do mundo, a Alemanha ganhou confiança e influência no cenário mundial nas duas últimas décadas. Berlim também ganhou espaço como uma das avançadas capitais da Europa. Porém o país ainda guarda as marcas da divisão, com o desemprego no leste ainda quase o dobro do registrado no oeste. Além disso, há a duradoura desconfiança entre os “arrogantes” do oeste e os “ingratos” moradores do leste.

Nesse meio tempo, ex-comunistas que construíram o Muro de Berlim uniram forças com insatisfeitos social-democratas para criar um novo partido político, A Esquerda, que capturou mais de 10% dos votos nas eleições gerais de setembro.

O cientista político Jochen Staadt, que estuda a República Democrática Alemã (RDA) na Universidade Livre de Berlim, diz que há ainda diferenças consistentes entre os alemães do leste e do oeste. “As pesquisas mostram que, quando questionados sobre o que é mais importante para eles, a igualdade ou a liberdade, os moradores do oeste em grande parte preferem a liberdade, enquanto os do leste dizem igualdade, querendo dizer igualdade econômica”, diz Staadt.

O pesquisador nota que a Alemanha fez um trabalho melhor que muitos de seus ex-aliados no bloco do leste em relação à garantia da legalidade após a existência de Estados repressivos. “A República Federal foi certamente mais rápida e abrangente em termos de superar os crimes da polícia secreta na Polônia e mesmo na Alemanha Ocidental após a Segunda Guerra”, afirma ele.

Mundo ganha uma nova roupagem

Berlim (AE) – Pincelada a pincelada, Gerhard Kriedner aplicava tinta acrílica rosa com um pequeno pincel, em uma faixa de 13 metros do Muro de Berlim. A pintura recria outra, realizada por ele meses após a queda do Muro de Berlim, ocorrida em 9 de novembro de 1989. Kriedner e outros 90 artistas de todo o mundo se uniram para repintar suas criações originais nas placas de concreto, trazendo nova vida a imagens carcomidas pelas intempéries ao longo de duas décadas, na maior área remanescente do muro que antes dividia a capital alemã. “Isso é algo muito emocionante para mim”, diz Kriedner, hoje com 69 anos. Ele conta que escapou da República Democrática Alemã comunista para a República Federal Alemã, a oeste, quando ainda era jovem. “O Muro de Berlim representa a total falta de liberdade que tínhamos naquela época.”

Enquanto os berlinenses inicialmente estavam ansiosos para derrubar a estrutura, nos últimos meses tem havido um grande esforço para restaurar a Galeria do Lado Leste do muro, com extensão de 1,3 quilômetro. O local tornou-se um ponto turístico, com 106 diferentes pinturas e artistas.

“O muro estava podre de lado a lado”, nota Kriedner, em um frio dia de outono, enquanto realiza as últimas pinceladas em sua obra – uma paisagem escura, árida, interrompida por bolas de sabão coloridas em rosa e azul-claro. O trabalho do artista é sua interpretação da promessa socialista, em oposição à realidade que vivenciou.

“Para restaurar o muro, todo o trabalho artístico (anterior) foi removido, o concreto foi raspado até as estruturas de aço e então tudo foi reaplicado, mas dessa vez com tintas acrílicas à prova d’água”, explica o artista bávaro. Kriedner revela que trabalha com uma foto do trabalho original, para garantir fidelidade à primeira proposta.

Kani Alavi, o chefe da Associação das Galerias de Artistas do Lado Leste, tem sido um importante agente por trás da restauração do muro, iniciada em outubro de 2008. Alavi realizou durante anos uma campanha para coletar 2,5 milhões de euros (US$ 3,7 milhões) dos governos municipal, estadual e federal para a restauração. O projeto inclui uma sala e um pagamento para os artistas, que de outro modo precisariam trabalhar de graça. Do grupo inicial de artistas, apenas cinco não quiseram participar do projeto de renovação. Seis outros morreram e seus murais foram restaurados por outras pessoas.

“Nós acreditávamos que era realmente importante recriar as pinturas porque, agora, há toda uma nova geração que não se lembra do Muro de Berlim original e dos eventos históricos que levaram à reunificação alemã”, diz Alavi, artista nascido no Irã, que já restaurou seu próprio mural na famosa passagem do Checkpoint Charlie, um posto militar de controle da Guerra Fria. Ele fez sua intervenção inicial logo na primeira noite da abertura da fronteira.

Todos os dias, a Galeria do Lado Leste, no bairro de Friedrichshain, atrai milhares de turistas, registrando suas fotos diante dos murais.

O lado ocidental do muro foi coberto com grafite durante décadas, desde que a barreira foi erigida, em 13 de agosto de 1961. A porção oriental permaneceu desolada e fortemente protegida por guardas de fronteira durante décadas. Apenas depois do fim do muro um grupo de artistas decidiu decorar os escombros – foi o primeiro projeto artístico conjunto, na capital outrora dividida.

Eles convocaram artistas de todo o mundo, para se unirem a eles e expressar seus sentimentos em desenhos e cores, naquele que no passado era o intocável muro do lado oriental. “Nós não tínhamos nada, a não ser tinta e pinceis baratos, mas estávamos tão eufóricos sobre todas as mudanças históricas e queríamos expressá-las em nossas pinturas”, afirma Alavi. O iraniano acrescenta que os murais mostram a alegria e a esperança da superação da injustiça, um sentimento comum entre as pessoas da época.

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(Lucas 6:38)
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