Dia da Saúde e uma nova consciência sobre corpo e mente saudáveis
Hoje, 5 de agosto é o Dia Nacional da Saúde, data criada em 1967, para lembrar o nascimento do médico sanitarista Oswaldo Cruz, um dos principais nomes da história da saúde pública brasileira. Mais do que uma homenagem, o dia tem como propósito estimular a conscientização sobre a importância dos hábitos saudáveis e a prevenção de doenças.
Mas, diante do que compreendemos sobre o funcionamento do organismo, é necessário ampliar a própria ideia de saúde e considerar o ser humano de maneira integral, compreendendo que corpo e mente estão permanentemente conectados. O sistema nervoso também faz parte do organismo e não funciona isoladamente. Por isso, cuidar da saúde mental não significa apenas recorrer à psicofarmacologia quando um sofrimento aparece, significa compreender como aquilo que vivemos, repetimos, sentimos e construímos ao longo da vida interfere no funcionamento do cérebro e, consequentemente, no corpo.
Para a psiquiatra, Mestre em Ciências da Saúde e professora universitária Maria Carolina Pinheiro, que atua há mais de 15 anos com atendimentos em psiquiatria e psicoterapia, essa visão integrada é fundamental: “Hoje, sabemos que cuidar da mente não está dissociado do cuidado com o restante do corpo. Não existe saúde sem saúde mental. Não existe saúde mental separada do resto do corpo, isso é uma ficção que a própria psiquiatria já superou faz tempo. O sistema nervoso é parte do organismo, ele responde a inflamação, a sono, a hormônio, a intestino, a exercício físico, a tudo que atravessa o corpo. Quando alguém chega com ansiedade ou depressão, eu não olho só para o pensamento, olho para o sono, para a alimentação, para o cortisol, para o histórico de dor crônica. Cuidar da mente hoje é cuidar de um sistema integrado, e isso muda completamente a forma como tratamos e como prevenimos.”
A infância como arquitetura cerebral
Se
saúde
é
integral,
a
prevenção
também
precisa
começar
cedo.
As
experiências
vividas
na
infância,
especialmente
aquelas
relacionadas
aos
vínculos
e
às
relações
de
apego,
participam
da
construção
da
maneira
como
cada
indivíduo
irá
lidar
com
emoções,
confiança
e
estresse
ao
longo
da
vida. Maria
Carolina
explica
que,
para
a
psiquiatria,
as
marcas
da
infância
podem
permanecer
presentes
na
vida
adulta
e
que
o
cuidado
não
se
resume
à
medicação:
“A
infância
não
é
só
lembrança,
ela
é
arquitetura
cerebral.
As
primeiras
relações
de
apego
moldam
literalmente
os
circuitos
que
vão
regular
emoção,
confiança
e
resposta
ao
estresse
pelo
resto
da
vida.
Isso
a
neurociência
do
desenvolvimento
já
demonstrou
de
forma
robusta.
Então
quando
a
psiquiatria
trata
um
adulto,
muitas
vezes
ela
está
trabalhando
com
marcas
que
vêm
de
vínculos
que
faltaram
ou
que
machucaram.
O
remédio,
no
sentido
mais
amplo,
não
é
só
a
medicação,
é
oferecer
uma
relação
terapêutica
segura,
que
funcione
como
uma
espécie
de
reparação
daquilo
que
não
pôde
ser
vivido
bem
lá
atrás.
A
psicofarmacologia
ajuda
a
regular
o
sistema
para
que
essa
reparação
seja
possível,
mas
quem
cura
é
o
encontro,
é
a
experiência
emocional
corretiva.
Isso
não
é
sentimentalismo,
é
o
que
a
ciência
do
apego
vem
confirmando
há
décadas.”
Somos aquilo que repetimos?
Se
nossas
experiências
participam
da
construção
de
quem
somos
,
nossos
hábitos
também
têm
papel
importante.
A
repetição
de
comportamentos
fortalece
determinados
caminhos
neurais
e
ajuda
a
explicar
por
que
mudar
padrões
pode
ser
tão
difícil
e
compreender
o
funcionamento
do
cérebro
também
pode
abrir
espaço
para
novas
escolhas.
"É neurobiologicamente exato dizer que somos aquilo que repetimos, não aquilo que desejamos ser. Cada comportamento repetido consolida circuitos neurais, criando caminhos de menor resistência no cérebro com o fortalecimento de sinapses. É por isso que hábito é tão difícil de mudar, o cérebro sempre vai preferir o caminho já pavimentado, pois gasta menos energia, mas isso não significa que estamos condenados ao automatismo. Mudar exige primeiro reconhecer o padrão, porque a gente só decide de verdade sobre aquilo que enxerga. Depois exige repetição da nova escolha, não da escolha antiga, porque uma decisão isolada não reconfigura nada, é a repetição consistente que constrói um novo caminho neural até ele ficar mais forte que o velho. E aqui entra algo que a filosofia me ensinou antes da neurociência confirmar: liberdade não é ausência de determinação, é a capacidade de intervir conscientemente sobre aquilo que nos determina. Nietzsche já dizia que nos tornamos aquilo que somos através da disciplina sobre nossos próprios impulsos, não pela negação deles. Então a melhor escolha não é a que vem de um estalo de vontade, é a que a gente sustenta repetidamente até ela virar quem a gente é", conclui a psiquiatra Maria Carol.
Crianças, telas e a saúde do futuro
Pensar
em
saúde
também
significa
olhar
para
as
transformações
sociais
que
estão
moldando
as
novas
gerações.
A
presença
cada
vez
maior
das
telas
na
infância
e
a
redução
das
experiências
presenciais
levantam
questões
importantes
sobre
desenvolvimento
emocional,
vínculos
e
capacidade
de
lidar
com
frustrações.
Para a Mestre em Ciências da Saúde: “Não dá para fazer prognóstico individual sem conhecer a criança, mas dá para fazer prognóstico coletivo, e ele preocupa. Estamos criando uma geração que aprende a regular emoção através da tela antes de aprender a regular emoção através do vínculo humano, e isso é uma inversão perigosa. O cérebro infantil se desenvolve por experiência relacional, é o adulto de referência que ensina a criança a nomear e tolerar frustração, tédio, raiva. Quando a tela entra como resposta automática para qualquer desconforto, essa criança perde o treino emocional que só se faz no corpo a corpo, no olho no olho. Isso não quer dizer catástrofe garantida, quer dizer risco real de relações mais frágeis, menor tolerância à frustração, mais ansiedade e mais isolamento, porque conexão digital não substitui vínculo, ela simula. O prognóstico que dá para fazer é de saúde pública: se a gente não regular o tempo de tela, não fortalecer a presença do adulto de referência e não tratar isso como prioridade coletiva e não só escolha individual da família, vamos colher mais sofrimento psíquico nessa geração. Por isso defendo que pauta como o ECA Digital não é exagero, é resposta proporcional a um problema que já está aparecendo.”
O afeto como parte da saúde
Em
uma
sociedade
marcada
pela
velocidade,
pela
hiperconexão
e
por
relações
muitas
vezes
mais
frágeis,
falar
de
saúde
também
é
falar
sobre
a
qualidade
dos
vínculos
que
construímos.
O
filósofo
Zygmunt
Bauman,
ao
definir
a
chamada
“modernidade
líquida”,
refletiu
sobre
relações
cada
vez
mais
fluidas
e
menos
permanentes.
Para
Maria
Carolina,
recuperar
a
profundidade
dos
encontros
pode
ser
uma
forma
de
manutenção
da
saúde.
“Na modernidade líquida, como bem descreveu Bauman, os vínculos se tornaram descartáveis e sem compromisso de permanência, e isso empobrece justamente o tipo de afeto que Spinoza chamava de ativo, aquele que nasce do encontro real e não da relação de consumo. Então sim, o afeto é remédio, mas não qualquer afeto, é o afeto que vem de relações que sustentam presença, que toleram tempo, que entendem que o atrito faz parte. Quem entende isso e volta a investir em vínculos duradouros, em presença de corpo e não só de tela, tem mais chance de ter saúde mental e também física, porque o sistema nervoso humano evoluiu para ser regulado por outro sistema nervoso presente, não por notificação. A modernidade líquida nos deu velocidade e nos tirou profundidade de encontro, e é essa profundidade que se pensarmos bem em última instância é o que cura", explica a professora.
Saúde é um conceito inteiro
A
mudança
de
paradigma está
em
entender
que
saúde
não
é
escolher
entre
cuidar
do
corpo
ou
da
mente
e
sim
compreender
que
o
cuidado
precisa
ser
integral.
No
dia
de
hoje,
vale
lembrar
que
prevenção
também
é
presença,
vínculo,
consciência
e
escolha
e
que
cuidar
da
saúde
começa
muito
antes
de
uma
doença
se
manifestar.
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