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Pesquisando por "lobisomem cedro de são joão" nas Redes Sociais

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  • Claudia P.

    em 14/04/2014 Via Youtube
    LOBISOMEM ENCONTRADO MORTO , CAUTION ON TAPE!!!

    Inscreva-se. Inscreva-se. Será? não sei pra mim é apenas um velho bebado, (nunca saberemos) só sei que quem tava gravando ta se cagando de medo. Subscribe. V...

  • UFO FULL

    em 11/02/2014 Via Youtube
    Lobisomem Real encontrado morto em Cedro São João SE

    Subscribe.

  • Emilly Bieber

    em 05/04/2013 Via Youtube
    Bicho estranho encontrado em Cedro de São João- SE

    Bicho estranho encontrado morto em Cedro de São João-SE.

  • Claudia P.

    em 15/04/2014 Via Youtube
    Lobisomem Real encontrado morto em Cedro São João SE

    Esse Lobisomem foi morto por cães e se assemelha muito com um ser humano Já imaginou ganh. Inscreva-se. Bicho estranho encontrado morto em Cedro de São João-...

  • MrCrisrami

    em 14/07/2013 Via Youtube
    Lobisomem Real encontrado morto em Cedro São João SE

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  • Lobisomem encontrado morto em Cedro de São João-SE

    Lobisomem encontrado morto por cachorros em Cedro de São João -SE.

  • UFO SHOW

    em 25/03/2014 Via Youtube
    Lobisomem Real encontrado morto em Cedro São João SE

    UFO SHOW.

  • UFO OVNI

    em 11/02/2014 Via Youtube
    Lobisomem Real encontrado morto em Cedro São João SE

    Inscreva-se.

  • UFO TV

    em 28/02/2014 Via Youtube
    Lobisomem Real encontrado morto em Cedro São João SE

    UFO TV.

  • Fato Estranho

    em 23/07/2013 Via Youtube
    Lobisomem Real encontrado morto em Cedro São João [Sergipe]

    A imagem ja fala por sí só.

  • Ana Maria

    em 04/04/2013 Via Google+
    MONTALEGRE E TERRAS DO BARROSO
    por
    Narciso Alves Pires - continuação 2ª parte


    9.PASSATEMPOS NA ALDEIA

    Por vezes ao Domingo de manhã, após a missa a que ninguém faltava, juntava-se um grupo de moços atirando à pedra, no caminho ao fundo da horta de Pereira, junto à taberna do meu tio Luciano.
    O primeiro lugar era geralmente disputado entre o Bento do Coelho e o meu primo Zé do Vale, normalmente com vitória deste, mas devo dizer que com a pedra pequena, várias vezes eu ganhei.
    Isto porque enquanto eles faziam valer a força, atirando com os dois pés fincados no chão, eu valia-me mais do jeito do balanço, rodopiando sobre um pé só, o que logicamente me proporcionava maior impulso para o arremesso. Com pedras maiores, - meu primo chegou a atirar com uma que eu mal sustentava com os dois braços -, já eu nada conseguia, pois não conseguia dar o tal jeito em face do seu peso.
    Por causa deste divertimento, praticamente o único arremedo de desporto que ali se praticava, - já que a pesca e a caça tinham fins absolutamente utilitários -, davam-se por vezes tremendas zaragatas.
    Era o caso de um perdedor sofrer mal a derrota, e palavra puxa palavra, gerava-se por vezes um arraial de pancadaria.

    10.SERRAS

    É o Barroso uma região extremamente acidentada, onde os montes e as depressões de terreno se sucedem, píncaro após píncaro, desfiladeiro após desfiladeiro.
    As suas serras principais, - Larouco, Gerês, Barroso, Alturas e Leiranco -, contam-se entre as de maior altitude do país, constituindo por assim dizer o terminal dos Pirinéus, os quais prolongados para Sudoeste, atravessam a Galiza e entram em Portugal, estendendo-se até ao Minho.
    Pode mesmo afirmar-se que todo o Alto Barroso é uma serrania contínua, já que entre as serras do Larouco e do Gerês se estende ininterruptamente uma cadeia de montanhas intermédias, cuja altitude se situa entre os 1200/1400 metros.
    Embora predominantemente pedregosas e ásperas, a Primavera veste-as de cor, tapetando-as de urze, carqueja, queiroga, tojo e giestas. Nas alturas, quase solitários, alguns carvalhos e vidoeiros elevam-se orgulhosamente sobra as rochas ciclópicas, vindas da aurora do mundo.
    A água, abundante e fresquíssima, brota gaiatamente de inúmeras fontes e nascentes, constituindo um prazer saboreá-la estendido entre as urzes e fetos, vendo-a manar de um fundo de areia finíssima.
    Vezes sem conta, flanando pelos montes, eu procurei essas fontes para me dessedentar, e já saciado, voltava de novo a debruçar-me para mais um trago, tão grande era a satisfação e frescura dada por aquelas águas


    11.RIOS

    Para além de vários cursos de água menores e que só engrossados pelas chuvas do Inverno assumem alguma expressão, os rios mais importantes do Barroso são o Cávado, o Bessa e o Rabagão.
    Destes, o Bessa, rio pequeno mas famoso pelas suas trutas, corre entre Sarraquinhos e Santo Aleixo, onde desagua no Tâmega. O Rabagão, nascido por alturas do Codeçoso, vai confluir com o Cavado, de que é afluente, um pouco abaixo da famosa ponte de Misarela.
    Quanto ao Cavado, segundo rio português, antes de seguir para Oeste a infiltrar-se no mar, junto a Vila do Conde, atravessa em toda a sua extensão o Alto Barroso, nomeadamente a região de Montalegre.
    Nascido nas alturas do Larouco, desce primeiro pronunciadamente até esta Vila, cumprindo a partir daí e até Covelães um percurso quase plano. Ao longo dos quinze quilómetros que separam Montalegre desta povoação, apenas alguns pequenos saltos e açudes cortavam nesse tempo a superfície plana do rio, pelo que o desnível pouco excederia os quinze metros.
    O rio, neste troço pouco largo e profundo, salvo nalguns locais em que um pego se escancarava negramente sob a limpidez das águas. A partir de Covelães no entanto, o desnível tornava-se acentuado, sendo as águas do rio, que antigamente apenas se utilizavam na agricultura, represadas e utilizadas em imponentes barragens, com vista à produção de energia.
    Durante o Verão as águas passavam devagar sob a superfície aparentemente imóvel, reflectindo sem um estremecimento as árvores das margens e as nuvens do céu. Plantas de características próprias como as espadanas e os fetos, - a que ali usualmente chamam “fentos” -, cresciam nas margens ervosas, entre o mato viçoso, sombreado pelas copas frondosas dos robustos carvalhos, os ondulantes ramos dos salgueiros e as tremeluzentes folhas dos vidoeiros.
    A meio da corrente, pelo rio abaixo, emergia, penedos e ilhotas atapetadas de areia, enquanto nos troços planos a água quieta da superfície brilhando ao sol, era a própria imagem da serenidade.
    Ao longo do curso do rio, sucediam-se áreas extensas cobertas de espadanas, por entre as quais os peixes iam deslizando harmoniosamente em requebros e ademanes.
    Atravessando o rio, algumas pontes, geralmente em locais onde a profundidade não permitia vadeá-las, como na Ponte Nova e na Ponte Monim. Em maior número e em locais menos profundos, grandes pedras, mais ou menos planas, a que os naturais chamavam “pondres” ou “pondras”, permitiam a passagem servindo como atalhos do rio. 
    Pedras pisadas a gastas por gerações que há muito desapareceram, elas figuravam, juntamente com as encruzilhadas dos caminhos, no lendário de todas as aldeias, pois era nelas ou à saída delas que, afirmavam, muitas vezes surgiam lobos, bruxas, lobisomens e almas do outro mundo…
    Quanto a peixe, o rio era relativamente pobre, tanto no que respeita à qualidade, como à quantidade. Até Covelães apenas três espécies se encontravam, - a boga, o escalo e a truta, os dois primeiros mais abundantes, a última mais rara mas mais delicada.


    12.FAUNA E FLORA

    Região de imponentes serranias, natural é que ali se aceitem numerosos animais, como o lobo, a raposa, o gato bravo, a lebre, e principalmente o coelho. O javali e o cabrito montês ou gamo, em tempos ali existentes, terão desaparecido da região, enquanto o cavalo selvagem cuja extinção era praticamente um facto, parece estar a reaparecer, mercê das condições que lhe são proporcionadas no Parque Nacional do Gerês.
    Quanto a aves, muitas eram igualmente as espécies existentes, desde a águia e o milhafre à perdiz, ao gaio, à pega, ao melro, ao pombo bravo e muitas outras de menor porte. Isto para além de corujas, mochos e mais aves nocturnas.
    No que respeita à flora, constituindo o carvalho e o vidoeiro as principais reservas florestais da região, mesmo estas espécies eram já muito abundantes, dado o desbaste sofrido ao longo dos anos sem a necessária reflorestação. O clima, a exploração comercial das madeiras, os solos difíceis, com serranias e pedregais extensos, e por último a oposição dos naturais à reflorestação, cada vez mais diminuíam para a diminuição dessas espécies.
    Com efeito, se por um lado a procura de madeira de carvalho e vidoeiro levava ao abate sistemático destas árvores, por outro lado o facto dos viveiros destinados ao repovoamento florestal ocuparem extensões consideráveis de montes e baldios até aí utilizados no pascigo dos gados, levava as populações das aldeias a proceder sucessivamente à sua destruição. Claro que a reflorestação das serras seria de inegável utilidade, contribuindo para o progresso e valorização económica de região, mas os seus naturais, sem alternativas para a escassez dos pastos, dificilmente atendiam a planos a mais ou menos prazo, dependentes como estavam de necessidades imediatas. Daí a oposição demonstrada e a destruição sucessiva e sistemática dos viveiros plantados.
    Para além de carvalhos e vidoeiros era possível encontrar também razoável número de carvalheiras, alguns castanheiros, uns quantos pinheiros, pereiras e macieiras, e até um ou outro cedro ou plátano. Mas conquanto isto signifique que estas e possivelmente outras espécies poderiam ali adaptar-se, - o castanheiro chegou mesmo a ser abundante e constituir a cultura privilegiada da região -, o facto é que a expressão florestal do Barroso era então pouco significativa.


    13.O MOSTEIRO E A CASCATA DE PITÕES

    Nos termos de Pitões dois pontos merecem especial referência: o Mosteiro de Santa Maria das Júnias e a Cascata.
    O Mosteiro situa-se na serra de Mourela, escondido numa depressão de dois montes, entre silvedos e matos. É contornado a nascente por um riacho anónimo, no Inverno bastante caudaloso, o qual algumas centenas de metros abaixo se despenha de considerável altura, formando a conhecida Cascata de Pitões. 
    Segundo um documento existente no cartório bracarense, o Mosteiro existiria já no Século XIV, embora a referência seguinte nos apareça, apenas num outro documento do Século XVII existente no Convento de Santa Maria de Osera, na Galiza.
    Ocasionalmente, pessoa amiga descendente de famílias de Pitões, confidenciou-me ter visto no Mosteiro, creio que gravada na parede junto ao altar mor, uma data que lhe pareceu ser 1095.
    Embora ali tenha estado em 1950, não me foi então possível visitar o interior da Igreja, pelo que não posso assegurar pessoalmente a veracidade da informação. Em todo o caso creio poder aceitar-se que a fundação do Mosteiro haja sido anterior à nacionalidade, embora verdadeiramente nada de seguro pareça poder afirmar-se sobre a sua origem.
    Segundo uma lenda recolhida da mesma fonte, um tanto diferente de outras versões mais conhecidas, o Mosteiro teria sido mandado erigir por quatro cavaleiros que havendo-se perdido por aqueles córregos, formularam a promessa de ali consagrarem à Virgem um Santuário, caso reencontrassem o caminho perdido, como efectivamente aconteceu.
    Outra lenda, diferente e referida por outros autores, é a que respeita a um abade, Frei Gonçalo Coelho, que em tempos ali terá vivido. Segundo a versão que me foi dado ouvir, os habitantes de Pitões ouviram certa noite os sinos do distante Mosteiro tocando ininterruptamente, e quando de manhã ali se dirigiram depararam com o abade morto, num caixão sobre o altar-mor.
    Ainda em relação a este abade uma outra lenda, referida por outros autores, é a de que ele teria previsto a sua própria morte e morrido efectivamente uma semana depois, perdido nas neves da serra, quando voltava de Espanha.
    Tal facto ter-se-ia dado por volta de 1501 e entre as duas versões a coincidência maior, e quase única, é a do tanger dos sinos, também neste caso mencionada. Como quer que seja, este abade ficou na lenda e na devoção das gentes de Pitões com o nome de São Gonçalo.
    Quanto à Igreja, embora não possa assegurá-lo, pareceu-me dividida a meio por dois tipos de arquitectura dissemelhante, dissemelhança aliás surpreendida em vários outros pormenores, o que poderá significar que nem todo o conjunto haja sido edificado na mesma época.
    Com efeito, enquanto por exemplo a porta da Igreja, de arcos ogivais, de figuração bastante elaborada e nítida, parece acusar o tipo romântico, já o amplo forno, magnificamente conservado, parece sugerir outra concepção arquitectónica, possivelmente mourisca. Em todo o caso esta hipótese assenta numa recordação superficial e de modo algum pode considerar-se definitiva.
    No mesmo claustro, exactamente à entrada, e semelhando sentinela de um castelo antigo, perfilava-se então um magnífico cedro, pelo que sei, já infelizmente desaparecido. Também em toda a roda do pátio algumas colunas restavam e sobre elas apenas já existiam três arcos. Como tudo o mais deste austero e impressivo conjunto, também o claustro pagara ao tempo o seu tributo, pairando nele uma atmosfera de silencio e recolhimento vindos de muito longe.
    À esquerda as ruínas das celas dos frades mostravam a céu aberto o interior atulhado de destroços, enquanto nos restos de paredes se viam ainda os sítios onde tinham estado cravados os espigões de ferro das janelas.
    Espreitando por sobre essas paredes derruídas, avistava-se lá em baixo um emaranhado de arbustos e silvas escondendo por completo o rio, que no entanto se ouvia marulhar nas profundidades.
    Aqui os monges, longe do mundo e dos homens, se haviam dado à meditação e, - quem sabe? -, talvez também ao sonho. Cultivando a horta, surpreendendo um ou outro animal do monte, um ou outro peixe em linha de água, moendo o grão e cozendo o seu pão, aqui rezavam, aqui atingiam decerto a serenidade e a paz, na contemplação bucólica da natureza.
    Que verdades atingiram? Que respostas tiveram?
    Fossem quais fossem, hoje deles nada resta senão as lajes que pisaram, e quando estas tenham por sua vez desaparecido na voragem do tempo, - então restará apenas  céu!
    Ao lado do mosteiro situava-se o cemitério, então também já praticamente arrasado e com algumas campas a confundirem-se e a perderem-se entre a vegetação, em resultado duma inundação provocada pelo rio durante um Inverno especialmente rigoroso. Segundo os naturais terá sido uma tromba de água que alagando os muros quebrou a lousa de várias sepulturas, arrastando os caixões para as profundidades.
    Das poucas intactas mal se distinguiam já os dizeres, caindo pouco a pouco no esquecimento aqueles para quem foram a última cobertura na Terra. E um tanto poeticamente, sobre as sepulturas nasceram rosas!
    Ainda no cemitério, e acima do velho portão ferrugento, podiam observar-se duas velhas esculturas de pedra, uma de cada lado, representando animais pouco identificáveis. De qualquer modo ao ver de longe estas esculturas a que o povo de Pitães chama cães e alguns entendidos supõem ser ursos, ocorreu-me de imediato uma relativa semelhança com a célebre “Porca de Murça”, espécie de totem de pedra existente na Vila do mesmo nome, próximo de Chaves.
    Em todo o caso foi apenas uma impressão e como não as examinei em pormenor, nem sequer de perto, - era então muito novo e estava apenas vivendo -, não posso ter uma opinião firme sobre o que essas esculturas poderiam efectivamente representar.  De resto ao longo do tempo, os ventos, chuvas, o granizo e o calor decerto lhes esbateram as linhas alterando-lhes o aspecto inicial.
    Sei hoje que a Noroeste do cemitério existia, e talvez ainda exista, um velhíssimo moinho, onde possivelmente os monges moíam o seu grão, mas a já referida informalidade da minha passagem e o facto de ninguém na altura se lhe haver referido, fizeram com que não o apercebesse.
    Quanto à Cascata, distante do Mosteiro algumas centenas de metros oferecia uma panorâmica magnífica, com a água despenhando-se num primeiro salto sobre uma protuberância rochosa, sensivelmente a meio da altíssima parede vertical, semelhando um púlpito suspenso sobre o abismo.
    Esta protuberância, batida e escavada pelas águas ao longo dos séculos, acabara sendo perfurada, e pelo fundo aberto, rugindo e espumando sob a pressão, as águas precipitavam-se sobre o fundo do vale.
    Daqui seguiam em declive, serpenteando entre ervedos e verticais de pedra, até desaparecerem muito ao longe, numa das muitas voltas do percurso.
    Curiosamente, outra saliência de um pouco mais de um palmo de largura subia obliquamente da base da altíssima parede até lá muito acima, à referida protuberância, dentro da qual como numa gigantesca taça, a água fervilhava antes de se precipitar ruidosamente no vale, dezenas de metros abaixo.
    Vale no qual me dei a explorar as numerosas cavernas cavadas pelo tempo e pelas águas, conjecturando sobre que idade teriam os velhíssimos carvalhos que bordejavam o leito da corrente e cujo aspecto decrépito falava de séculos.


    14.TIPO DE SOCIEDADE

    O tipo de sociedade existente no Barroso assenta fundamentalmente em princípios comunitários difíceis de encontrar em qualquer outra região do país. 
    Com efeito, numa região onde se diz haver nove meses de Inverno e três de inferno e onde as privações e dificuldades sempre fizeram parte do evangelho da vida, o homem, impreparado e rude, mas generoso e forte, cedo deve ter compreendido que a sua permanência e mesmo a sua subsistência iriam depender muito do esforço conjugado de todos.
    Nasceu assim um tipo peculiar de sociedade em que todos ajudam todos, tornando possível fazer face às carências existentes e às condições adversas em que a vida decorre.
    Foi apoiados neste princípio que os habitantes do Barroso puderam criar e desenvolver condições de vida, construindo habitações, aclimatando animais, adaptando métodos de trabalho e escolhendo as culturas necessárias à sua subsistência.
    Claro que pouco a pouco os clarões de civilização foram subindo da banda de lá dos montes, gentes de outras terras foram surgindo e a própria experiência dos que dali saíram e voltaram, introduziu ideias e curiosidades novas.
    Mas ainda não há muitos anos se deparava no Barroso com um estado de evolução e um tipo de vida que quase podiam dizer-se unicamente apontados para a sobrevivência. O rio dava o peixe, o monte dava a caça, a corte dava o leite e a carne, a messe dava o pão, e tudo isto o dava Deus!
    Este pouco parecia no entanto ser bastante para aquele povo excepcionalmente hospitaleiro, que quebrado o gelo inicial se mostra alegre, franco, trabalhador, sociável e capaz de dar a camisa do corpo ou repartir o caldo e a broa. Ainda hoje, só pelo habitual desdenhar dos de fora se torna um tanto desconfiado e embora de boa índole, torna-se em tais casos assomadiço e por vezes mesmo violento. Fora disso é o que ali está: franco, jovial, quase ofendido se alguém lhe não aceita a casa e a mesa.
    Nesta sociedade, com muito raras excepções, a identidade dos habitantes é normalmente dada pelo nome próprio acompanhado do patronímico familiar ou em alternativa, pela referência à profissão, ao ponto da aldeia onde vivem ou mesmo à terra de onde a família seja originária. Esta designação e não apenas o nome é que verdadeiramente os identifica, todo o mundo sabendo quem é por exemplo o Bento da Pereira, o João do Outeiro, o Manuel Sapateiro, o Amadeu do Chortelo, a Teresa do Russo ou a Maria do Padroso.
    Também no tratamento familiar se notavam algumas particularidades, sendo o pai e a mãe respectivamente tratados por “senhor Pai” e “senhora Mãe”.
    Quanto aos filhos, o mais velho se for rapaz é o “morgado”, se for rapariga é “morgada”, enquanto os tios são tratados por padrinhos.
    Entre os costumes familiares era de uso os filhos pedirem a “bênção” aos pais e aos padrinhos, beijando-lhes a mão, e em quase todas as casas o chefe de família rezava em acção de graças antes da ceia, acompanhado por todos os presentes.
    As medidas de capacidade eram ainda referidas pelas antigas designações de “almude”, “canada” e “quartilho”, enquanto para os sólidos os termos arcaicos estavam a cair em desuso, embora se ouvissem ainda mencionar o “alqueire” e a “rasa”.
    Quanto às medidas lineares, o metro era já praticamente absoluto embora também aqui se ouvisse ainda referir por vezes o “côvado”, a “vara” e mesmo o “palmo”.


    15.HABITAÇÃO

    O habitante do Barroso, espiritualmente ligado às serras, às árvores, aos rios e às próprias pedras dos caminhos, parecia fazer parte de um Universo em que o humano estava de tal forma integrado que se tornara ele próprio mais um elemento do todo.
    Esta identificação Telúrica do homem com a Natureza reflectia-se também no primitivismo das habitações toscas e enegrecidas, as quais embora rectangulares sugeriam bastante o que poderiam ter sido as primitivas habitações no interior dos “castros”.
    Com efeito a generalidade das habitações era rudimentar, com paredes de pedras amontoadas, quase sempre encimadas por um tecto de colmo, e sem disporem de chaminés ou aberturas, pelo que o fumo e o ar apenas nelas circulavam através da porta, em certos casos por um janelo pequeno, situado ao fundo.
    No interior, negro de fumo e absolutamente despido de qualquer nota de conforto ou higiene, distinguiam-se a lareira, a enxerga de palha, os bancos corridos, o armário, o escano, e nalgumas ainda, a rima de lenha para o Inverno. Por baixo, sob as mal ajustadas pranchas do chão, roncavam, mugiam e orneavam indistintamente, porcos, vacas e burros, enquanto em cima, cães, gatos e galinhas, transitavam à vontade, em busca de migalhas e restos.
    Ali toda a bicharada goza dum estatuto especial, bem podendo dizer-se até, em relação aos animais de trabalho que eles integram de cero modo a organização familiar, merecendo por isso os cuidados correspondentes à importância que assumem na economia da casa.
    De facto uma vaca, um vitelo, um burro ou um cavalo doentes, constituem grande preocupação para toda a família, concedendo-se-lhes cuidados e atenções particularmente desvelados.
    Para além de todos estes também o porco se poderia considerar um verdadeiro privilegiado, e não fora conhecer-se-lhes o fim próximo e certo, bem justificaria a inveja de todos os animais.
    Com efeito o porco era no Barroso o único ser vivo que para além de nada produzir senão esterco, dispunha de alimentação farta, engrolando sucessivos caldeiros de batatas, farelo e couves, mimo este último que os próprios donos raramente se dispensavam.
    A importância dos animais na economia familiar fazia mesmo com que se lhes outorgasse uma espécie de identidade, sendo habitual qualquer habitante duma aldeia reconhecer e saber a quem pertenciam os animais, até de outras aldeias, que por vezes encontravam perdidos nos montes ou em lugares distantes do seu pouco habitual.
    Tudo isto mostra a razão porque os animais compartilhavam tão à vontade a habitação dos próprios donos, nela se movimentando à vontade, em especial nas frias noites de Inverno.
    Quanto à casa, a lareira era por assim dizer o lugar sagrado onde os ancestrais da família há muito desaparecidos, como que vinham ainda sentar-se entre os presentes, nos longos serões de Inverno.
    Como já se disse o tecto era geralmente de colmo, palha de centeio disposta em feixes acamados uns sobre os outros por mão mais experiente, para que as águas da chuva e da neve, escorrendo por entre eles, deslizassem facilmente até aos beirais. Este sistema impedia qualquer infiltração das águas, apenas havendo que proceder de anos em anos à substituição do colmo na zonas apodrecidas pela humidade.
    Claro que tratando-se de casas sem ventilação e onde, pelo menos no Inverno, a lareira nunca se apagava, o fumo era ali rei e senhor, e a escuridão interior apenas era amenizada pela própria lareira e pela vaga e mortiça luz de uma candeia.
    Mesmo em pleno Verão, quando a lareira apenas se acendia para confeccionar as refeições e ao cair da noite, as espessas nuvens de fumo amarelo escuro, voluteando lentamente em espirais, pouco deixavam ver.
    De facto este fumo, não achando saída, ia-se acumulando e dando ao ambiente um aspecto fantasmagórico, ao mesmo tempo que forçava os presentes a curvar-se para resguardar os olhos.
    Ao longo dos anos as paredes foram-se assim cobrindo dum negro brilhante, e pouco a pouco o ambiente foi-se impregnando de tal modo que todas as coisas, - utensílios, roupas, as próprias pessoas -, tudo foi tomando o cheiro e a cor do fumo. Numa região onde o Inverno é extremamente rigoroso, com quedas extremas de temperatura, este tipo de casas onde a lareira nunca se apaga e o calor se concentra, torna-se por assim dizer um refúgio e uma necessidade.
    Quanto a casas de telha, naquele tempo haveria talvez quatro ou cinco, além da escola e da capela. Tudo o mais era coberto de colmo, embora mesmo assim algumas apresentassem uma construção mais apurada, com janelas rasgadas e as grandes pedras rectangulares perfeitamente talhadas e simétricas.
    Das casas de telha de Frades, a mais importante era a do Gervaz da Costa; enquanto que a melhor das de colmo era a do Bento da Pereira, - afinal uma e outra bem significativas -, a primeira mostrando a prosperidade actual e a outra evocando a prosperidade passada.
    Em ambas havia até uma banheira, luxo raro para uma região onde se não dá grande importância à higiene e onde até as raparigas mais dadas a cuidados e perfumes se expunham a críticas, dada a extravagancia que isso ali representava.
    Porque na verdade e no que respeitava a cuidados de higiene, a filosofia reinante era a de que “só se lava quem está sujo”


    16.ALIMENTAÇÃO

    No Barroso praticavam-se as três refeições habituais, embora sob designações diferentes, já que o pequeno almoço, o almoço e o jantar, eram ali designados respectivamente por almoço, jantar e ceia. À tarde tinha lugar a merenda, podendo ainda tasquinhar-se a meio da manhã um naco de centeio e uma patanisca de bacalhau.
    De qualquer modo a alimentação, frugal e uniforme, era pobre de qualidade e pouco variada. Assim, a primeira refeição do dia, a que, como referi, lá chamavam almoço, ainda para alguns se reduzia á “água quente”, ou seja, uma malga de água fervida com umas olhas de azeite, acompanhada por um razoável naco de pão de centeio.
    Outro preferiam leite, geralmente de cabra, de gosto pronunciadamente azedo, em que migavam pedaços de pão. Entretanto o café ia já aparecendo e ganhando adeptos, tornando-se aos poucos e poucos o pequeno almoço preferido. Apesar disso naquele tempo quem mais o consumia ainda eram os raros visitantes e os filhos vindos da cidade para férias, os quais devido ao hábito longe adquirido, o tomavam com uma fatia de pão barrada com manteiga.
    Manteiga, ela também de fabrico local, espessa, amarelada, de pouca qualidade e com tendência para rançar.
    Quanto às refeições, geralmente cozinhadas em potes de ferro de três pernas, suspensos numa corrente fixada nas traves do tecto sobre a lareira, a sua riqueza não era maior, já que normalmente se compunha apenas de batatas, por vezes acompanhadas dum ovo cozido ou estrelado. 
    Um hábito generalizado era o de irem mergulhando as batatas em leite coalhado, empapando-as assim numa espécie de iogurte natural, de aspecto não muito agradável, mas provavelmente de sabor aceitável.
    Após a matança do porco e também em ocasiões festivas, lá apareciam a chouriça e uns bons nacos de presunto, já que na aldeia toda a gente fazia a sua “ceva” e tinha o seu “fumeiro”.
    A “ceva” é, como se deduz, a engorda do porco para a matança, após a qual os enchidos, presuntos e demais partes do animal eram curados por exposição ao fumo, constituindo-se assim o chamado “fumeiro”.
    Os enchidos eram preparados com azeite e um forte colorau espanhol de cor castanho-avermelhada, donde resultava escorrer quando cortados ou cozinhados mais tarde, um líquido espesso e ácido de aspecto desagradável. Aliás toda a carne, - cabeça, chispes, presuntos -, adquiria inevitavelmente esse aspecto, já que durante a cura se ia impregnando de fumo e de pó, cobrindo-se por isso duma camada de um negro sujo, quase consistente.
    O que aliás não dava aos naturais grandes cuidados, sendo normal que assim mesmo a consumissem e achassem deliciosa. 
    Para além destes mimos a mesa tinha por vezes um coelho do monte ou uma fritada de peixe do rio, segundo a sorte fora mais ou menos propícia.
    Mais raro, normalmente em dias de festa, matava-se um cabrito ou, sinal de civilização, comprava-se no talho da Vila uma porção de vitela. Noutras ocasiões, como na Páscoa, mas especialmente no Natal, o cardápio melhorava substancialmente, pois para além dos já citados petiscos, apareciam também as rabanadas, as filhós, a aletria e o arroz doce. Era a hora da pequenada, cujo olho guloso deslizava quase assombrado por toda aquela munificência, tão acima do habitual que lhe parecia um sonho.
    Aliás toda esta festa, toda esta azáfama, emprestava ao Natal um encanto mais a juntar ao transporte religioso que então se vivia e a que tanto as crianças como os adultos eram especialmente sensíveis.
    E depois à noite, à roda da lareira onde os potes ferviam as suas misturas maravilhosas e as grandes sertãs frigiam as saborosas filhós, um sentimento de pura fraternidade se estendia sobre todos e perante aquele fogo vindo do alvorecer da humanidade, os corações transbordavam e as almas diziam em silencio uma oração que eu não sei dizer!

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